"A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo. (Nelson Mandela) "

domingo, 8 de setembro de 2013

PEÇA TEATRAL CAIPIRA.




PEÇA DE TEATRO "CAIPÍRA" : É DIFICI VIVER NA ROÇA! MAS TEM ALIGRIA!

Autoria: Glafira Rabelo

     A péça começa de histórias vividas quando munha mãe ensinava no povoado Vianas. Ela tinha uma amiga e todo ano na hora de fazer a matícula era um tormento porque a amiga não sabia a data de nascimento dos meninos, cada um era de um tempo. Tempo dos tijólos, tempo dos tamarindo etc. Então nas minhas andanças nas escolas da zona rural acabei de produzí-la, ouvindo e assistindo fatos como os relatados. Na verdade há um texto bem maior com outros acontecimentos interessantes e no final a peça. Leiam dêem risadas e curtam bem o São João.

Cena I:

Personagens:

 Generina = mãe

Zezim = filho

Silvina = agente de saúde

Cenário: cozinha da roça, fogão a lenha, canecos de alumínio pendurados e panelas de ferro, banquinhos de madeira, uma esteira ou couro de boi estendido ao chão, filhos sentados.

Mãe:

 - Vala-me Deus, hoje num tem uma colher de pó de café. Ai, ai!

Filho: (vai saindo de casa)

- Benção mãe!

Mãe:

-  Deus te abençoe meu fie! ( dá uma olhada admirada no filho e prgunta):

- Oxent menino tu vai pra onde mermo?

Filho: Pra escola mãe.

Mãe: É o que menino? Pedaço de menino indiota! Tu já viu chegar alguma coisa aqui de escola bestaiado? Vai dá dinheiro professor. Tu vai é pra roça ajudar seu pai que aqui num tem uma colher de café hoje!

Filho: Ta bom mãe. ( pega uma enxada e sai).

Alguém bate à porta.

MÃE: Dá uma olhada para ver quem é e diz aos filhos:

- Corre meninos, vão tudo pro meio do mato só vem quando eu chamar.

(Atende à porta, é a agente de saúde).

Agente de Saúde:

- Bom dia!

Mãe: ( meio irônica) Bom dia sinsinhora!

Agente: Eu sou Silvina, a senhora sabe, agora com a estrada todo mês vou passar para pesar e olhar a vacina dos meninos, a senhora pode me dizer quantos filhos tem, a idade e data de nascimento, preciso fazer a carteirinha deles.

Mãe.- Apois estáa ! Xo vê! Hummmm1 contando batendo os dedos no rosto.

É só seis mermo vai ser ste com o do buxo.

Agente: a data de nascimento do primeiro:

Mãe: Hum! É o zezim ele é dos tempo das olaria, eu lembro que eu ia com o barrigão fazer tijolo, pari no meio da queima, por isso que o bichim saiu escurim igual o pai .

 - O segundo é Xiquim, nasceu nos tempo das fornaia, eu tava rapando mandioca, dei as dô, pari no meio da casa de farinha. Hum só Deus sabe num sabe? Eita dia!

Agente ( impaciente):  senhora pegue ai os documentos dos meninos.

Mãe: Oia anote ai:

O ôto, é Lionzim, é do tempo das estrada, eu tava varrendo o terreiro quando vi aquele bucado de home vindo com as roupa tudo maracaiada de verde, nuns carro tudo verde. Ai eu disse: vala-me Deus eu acho que a mta ta é caminhado pra riba da casa. Dei as dô, pari.  O veio disse o nome é Lião que veio fezer a estrada. Ai! Ai! só veno mermo pra cer.

Agente: ( com impaciência)

- Senhora!

Mãe ( faz que não ouviu)

- A sinhorinha que café ?

Agente não eu quero é a certi...

Mâe: ( interrompe entregando um copo)

- Come um tiquim de saieta com farinha.

Mãe: (Continua)

- Quando nem pensava que ia ter menino me apareceu Dinizim, é dos tempo das pulitica, e eu tava aqui cum o coração apertado o povo todo pros comício num tinha um pé de gente. Foi dõ minha rimã! La pras tanta chega o carrão era o povo de Diunizio que vinha trazer meu veio, oxe; até dotô vinha, pari foi logo. O minono chorô, ai o veio disse é diunizio o nome desse cabra macho. Hum, Hum, Hum......

- Despois veio Adãozim, num sabe? Eu fui pari na Barra. Despois da estrada, hum! O povo num quis mais pari com a veia xica não! Cheguei na Barra, encontrei Leunira, aquela galega enfermeira veia do hospitale, passei a contar pra ela que eu só tinha menino macho ai ela deu o remédio, mandou eu botar o nome do menino Adão.

Ô muiezinha certera! No ôto ano me rimã, num é que pari Evinha que é do tempo do Hostipale São Rafael, por isso que a bichinha é um luxo!

   Agora vem a rapa do txo, que dizeno o dotô que é ota minina!

O veio já disse: vai chamar Elvira, hum! Nome de gente grande1 Num é que é a dotora do São Rafaé que vem aqui consultar nóis1?

Agente ( Mais impaciente)

-  Senhora me dê ai a certidão dos meninos por favor.

Mãe: Tá aqui não, o home levou pos goiais foi trabaià.

Agente indignada

 - A tá! mês que vem eu volto.

Mãe:  ( depois que a agente de saúde sai dá uma banana e diz):

- Aqui indiota, uma lata de leite nim num traz, só quer vim furà meus fie.Eu que sei a dõ que sufri pra botar meus bichim pra fora.

 Mãe: (Chama as criança)- Ô meninos vem.

Fecha a cena.

Cena II

Comício no interior:

(Cenário um palanque enfeitado de bandeirólas).

- Apresentador

- Alguns figurantes para formar a equipe do partido.

- Cndidato- Filicino Aruêra.

- Esposa do candidato - Louvina Aruera

Iniciando a cena:

Apresentador:

- Boa noite pessoá! Agora inconvido o nosso candidato Filicino Arueira pra dá uma palavra pra nóis..

    ( Povo aplaude e grita o nome de filicino.)

Filicino: Meu povo, homes e muieres do meu coração boa noite!

- Oia esta semana fui num encontro onde a gente se incontrou num encontro que se deu, lá na Barra do Rio Grande e chorei!!!!!!!!!!!!!

Chorei meu povo, quando vi o hospital.

Oia na outra inleição eu disse pra ocês votá pra mim que eu ia fazer o hospitale, vocês num acreditaram e num vtaram, se vocês tivesse votado eu tinha fazido.

- Agora ta todo mundo indo pra Barra. Mas se ocês tivesse acreditado neu, eu tinha fazido mermo o hospitale da gente. ( fala com bravura e joga o chapéu no chão.)

Esposa Louvina Aruêra: ( fala no ouvido dele)

Ô marido não é fazido é feito.

Filicino: (olha para o povo e diz):

- Mais oia meu povo! Que pedaço de muié besta ou feito ou fazido a palavra tá é dizida. Num é mermo!

Obrigado!

Fecha a cortina.

Cena III

Mãe: Olizina

Vizinha: Mariinha

Filho: Juquinha.

Encenando:

Mãe : Caminha Juquinha vem dá a lição.

Filho: Já vou!

 Mãe ( inquieta grita):

- Caminha Juquinha vem dá a lição.

Juquinha: ( com a cartilha na mão):

- p, a, pá - d, a, dá - r, i, ri - a.

Mãe: É o que? Indiota lê direito. (bate no menino)

Filho: p a, pa – d, a, da – r, i, ri - a

Mãe: Mas que pedaço de menino burro! Vai cai o cabelo  do chifre na escola e num aprende a lê.

Vizinha Marilina chega:

- Olizina! de lá de casa tô vendo você bater nesse menino.

Mãe:

- Esse indiota num aprende a leitura.

Vizinha:

- Mas não é assim não, tenha paciência. ( olha o livro com ar de espantada pergunta);

- Olizina e que nome é esse aqui?

Mãe: E eu meno sei! Eu num sei a ler, ele á que tem que aprender que tá na escola.

Vizinha:  - Mais Olizina ta certo, é padaria mesmo é por que ele ainda não sabe juntar as sílabas.

Mãe: E eu meno ia saber, eu meno sei a ler. A professora disse se num ensinar num recebe o bolsa família. E eu tô ensinando.

Cena IV.

O casamento de Evinha:

Personagens:

Vizinhança:Chiquinha, Deinha, Fiinha.

Mãe: Generina

Pai: Jordino Umbilino das Bruguia.

Noivo: Duzim Carapiora.

Noiva: Evinha.

O intruso ( pé de pano): Generim das Caçuada.

Irmão do noivo: Tunim

PARTE I- Meninas arrumando a mesa.

Chiquinha_- mais oia num tô dizeno gente ruim tem ésorte! Evinha emburraiada de home e vai casar heim!

- Quem diria!

Deinha- Muié dexa disso, ocê também num é minhas caçuada!

Fiinha: Eu me a  rimã, que num sei de nada dessas coisas, fico calada.

As duas se olham e fazem um ram, ram).

Chiquinha: - Pois eu digo tõ é cansada de ver Evinha no mei das cana com zezim chicote grande.

Mãe da noiva chega: Tu tá é falano de minha fia, Chiquinha? Tu é invejosa mermo toda vida foi. Pois fique sabeno que menina direita que nem evinha aqui nunca deu nem vai dar. ( sai de cena)

Chiquinha: Rumbora mininas, rumbora! (sai de cena)

Evinha chega: Eta mais ta é bonito! Sinti foi sardade de meus tempo cum Genrim! Hem, hem, bichim foi embora pos são Paulo mermo.

Generim Chega: ( agarrando-a por trás)

 Mais acabei de chegar minha frõ.

Irmão do noivo chega: - Evinha!

Generim se esconde.

Evinha: oxente! o que é? Pricisa me gritá assim é? Tu num tá veno que tô acabano de ajeitá as coisa de meu casório cum seu irmão.

Irmão do noivo: Casório é? Quero é vê só. ( sai de cena )

Evinha  chama Generim: E agora? tu tem que casá comigo, já fui vista cum ôcê.

Generim: O que? tu ta doida Evinham? tú lá e muié de casamento? Cherosa, fogosa! Tu é pra me fazer feliz, mas casá num dá.

Mãe:( chega repentinamente): -  Evinha! Tu tá cum ôto home! Tu vai casá hoje.

(Generino sai correndo.)

Evinha: Oxente mainha tu tá que nem tunim, que chegou aqui nestante e incutiu que me viu cum ôto é?

Mãe; - vamo se arrumar.

(O padre, o pai os convidados chegam).

Pai diz valente: - Já tá passano da hora do casório. Cadê esse Duzim Caipora que num aparece.

Noivo chega: - Já tô aqui mermo.

Pai: -  Ah! Eu sabia que tu é um cabra macho, num ia fugi do cumpromisso.

Duzim: - Fujo não mermo.

A noiva chega:

 Padre: Rumbora adiantar logo esse casório que eu já tô com fome;

Chiquinha grita: - E eu tô cum os pés friviano pro mode dançar o rela buxo.

Padre: Dunim Caipora tu acieta Evinha, moça direita, donzela prendada,  como esposa?

Duzim; (Vira para o povo): - Oia gente, eu Dunim fie de Zé Brugunço do bá, neto do Coroné Manezim barracão, sou um home de honra, um home de brio e num aceito desfeita não. Eu num caso cum essa Evinha nem na ponta do facão.

Pai vancê tá dizeno o quê seu cabra? Tu vai casá cum minha fia nem que seja morto e é já.

(Parte para cima do noivo com um facão e começa uma briga).

O irmão do noivo: ( toma a frente do irmão e diz) : Se acarme povo! Oia seu Jordino Umbilino Jirimum das Brugaia , acalme seu coração, Evinha num presta não, ainda hoje tava aqui agarrada com o tal do Duzim Carapiora, que chegou inté de bigode rapado do São ´Paulo.

Pai: ( vai pra cima da Evinha): - Tu vai me explicar essa passage agora e eu vou cortar seus pés se ôcê me invergonhá. Eu sou é neto de coroné, bisneto do veio Jusé  do cabaré e ninguém faz se de besta de mim, ainda mais fia muié.

Mãe: Se acalma meu veio, eu também num pensei nisso? Tô vino de lá pra cá, ta Evinha no pé da mesa cumeno um pedaço de bolo, dei um grito, pensano que tava cum alguém. Quando cheguei perto, Ninguém meu vei, ninguém. Acredite ne sua veia que nunca mentiu procê. Olha para a platéia e pisca os olhos.

   - O poblema  é que  a gente com essa seca num come outra coisa é fava todo dia! E ocê já se esqueceu que quem come fava enxerga dois.

Irmão do noivo : ( com ar de arrependido, querendo se explicar ) - Vixe Maria e num é que eu tinha acabado de cumê fava cum farinha quando vi evinha cum ôto!

Noivo: - Hem, hem, vem cá bichinha! Tu vai mermo é ser minha muiezinha. Eu aceito seu padre.

Padre: Então nem vou pergunta Evinha, antes que ocorra outro episódio: - - Tão casado.

     Começa a festa de sanfona, muita comida e muita bebida envolvendo a plateia (comidas e bebidas típicas do são jão).

  (Peça de Glaphira Rabelo, junho de 2006. apresentada no povoado do Santeiro 2004, no brejo em 2008 Olhosdágua e no colégio Elysio Mouvrão em pelos alunos). Sinto muita saudades da escola do Santeiro, jovens que nos gratificam ensinar.

Obs. A peça pode ser encenada desde que declarada a autoria da escritora.

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