"A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo. (Nelson Mandela) "

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Autor: Alberto Grimm 
Haveria um Limite para a Ganância Humana?
Cientista
Se há um evidente progresso material, ainda carecemos de progresso psicológico, ou discernimento...
A descoberta ocorrera por absoluto acaso. Ele investigava um modo de aumentar a capacidade de resistência de um alimento, um vegetal, contra as pragas inimigas da sua espécie, quando, sem que esperasse, aconteceu o fenômeno.

Mas ele não aceitou aquela “coisa” de imediato. Era extraordinário demais para ser verdade. Talvez, na realidade, tudo aquilo não passasse de um sonho, do tipo lúcido, daqueles que imitam com perfeição a mais pura e bruta realidade. Então, testou; testou outra vez, e mais outra. Tudo certinho, da parte dele não havia dúvida, aquilo parecia ser coisa verdadeira. Chamou seu assistente de confiança, repetiu o teste dezenas de vezes. Mudou o gabarito de teste, alterou as posições das cobaias, e tudo se repetiu como da primeira vez.

Não tinha para onde correr, era aquilo mesmo. Algo novo, ali, havia sido, por acaso, descoberto. Talvez, tratar-se-ia da maior descoberta de todos os tempos, desde que o homem se firmara sobre dois pés na superfície da terra. Não dormiu nos dias que se seguiram, estava ansioso demais. Usou esse tempo para refletir, e em vez de descanso, preferiu realizar novos testes, para comprovar que não estava delirando, ou sob efeito colateral de alguma substância que involuntariamente aspirara no laboratório.

Sem ter mais como contestar o fato, comprovada a descoberta, o próximo passo seria tornar público tal advento. Mas, como anunciar uma descoberta de tal vulto? Isso, certamente, iria abalar todas as estruturas sociais e materiais do mundo que conhecia. Alguns iriam adorar a novidade, outros, no entanto, iriam detestar. Colocando numa balança, onde os contras e os prós seriam medidos, avaliados, ponderados, claramente, havia uma desproporção nos pesos que seriam colocados nos pratos daquela balança, isso quando se considerava, por exemplo, o poder de cada um deles.

De um lado uma maioria barulhenta, mas sem voz ou poder suficiente para gritar e se fazer ouvir; do outro, uma minoria silenciosa, esta, capaz de, sem gritar ou fazer alarde, impor sua vontade, passar por cima de tudo, de se fazer ouvir à força, se fosse necessário. Eram estes os dois pesos que precisava comparar, antes de revelar aquela extraordinária novidade.

Proporcionalmente, o lado menos pesado, ou seja, a maioria, esta se beneficiaria com a coisa. Mas, havia o lado mais pesado, o mais forte, o dominante, que apesar de menor, era o dono da palavra final, e representava o poder regente. E era essa corriola autoritária, que na hora de fechar a conta, acabava por definir tudo. Na visão daquele misterioso grupo, todos os itens supostamente necessários ao bem estar de cada indivíduo, teriam de ser avaliados, antes de aprovados para uso, pelos seus intransigentes censores.

Resolveu fazer um teste antes de anunciar publicamente o evento. Reuniu a alta cúpula do laboratório para o qual trabalhava, e perguntou: “E se, apenas imaginem a coisa, descobríssemos um produto, cuja matéria prima é abundante na terra, que fosse capaz de livrar cada individuo da espécie humana, da maioria de suas doenças, com uma única dose, tomada em qualquer estágio etário?”.

"Seria um desastre em todos os sentidos”, sentenciou sem pensar muito um dos diretores presentes. “Imagine o caos em todas as instituições. Os médicos que ficariam sem ter o que fazer, e também os hospitais, clínicas, sem contar com toda uma gigantesca estrutura de ensino que seria destroçada. As indústrias farmacêuticas idem, políticos, governos; e as religiões que não mais poderiam fazer circo com seus milagres, enfim, todos seriam drasticamente, seriamente prejudicados, com tal calamidade!”.

"Num mundo sem doenças, até os santos, antes necessários para atender as preces dos doentes, seriam sumariamente deixados de lado. Pense num grande problema, o maior de todos, e teria como causa isso que acabou de colocar como possibilidade.”, completou emocionalmente alterado, de punhos cerrados, bufando pela boca como um animal raivoso.

Diante daquele consenso, já que ninguém mais se pronunciara, estava claro que espaço para sua descoberta, ali não havia. Por isso, até como justificativa para a convocação daquela reunião, resolveu apresentar um novo projeto, na verdade uma variação daquele que utopicamente pretendeu mostrar. Tratava-se da criação de um aditivo, capaz de tornar todas as plantas do mundo imunes a qualquer tipo de praga, com uma única aplicação. Sendo uma fórmula exclusiva, secreta, de propriedade do laboratório, isso certamente, agradaria a todos.

E agradou. “Ficaremos ainda mais ricos”, foi a única frase pronunciada após a exposição. “Mas esperem, há um discreto efeito colateral, cujas consequências para os consumidores, por exemplo, dos vegetais comestíveis, ainda estou avaliando...”, alertou em meio à balbúrdia motivada pela promessa de lucros que se formara no auditório.

"Esqueça esse insignificante detalhe. Diante da possibilidade concreta de transformarmos pedra em ouro, você está preocupado com as migalhas? Senhor, para nós o que importa é o dinheiro, do efeito colateral cuidaremos depois. Além disso, como você mesmo afirmou, é discreto, então, quem se importa?”, finalizou o mesmo diretor, ainda sob efeito hipnótico da notícia anterior, ou seja, da perspectiva de grandes lucros.

Com o produto no mercado, com os cofres do seu patrão cada vez mais cheios de dinheiro, de volta ao laboratório, frustrado com o destino obscuro de sua maior descoberta, aquela que jamais se tornaria acessível ao público, resignado, continuou a estudar os efeitos colaterais pela ingestão dos alimentos geneticamente modificados.

Ratos foram os pilotos involuntários daqueles testes. Nos primeiros exemplares estudados, observou uma discreta modificação nas extremidades de suas patas, como se fossem dedos, semelhantes a dedos humanos, apenas com unhas um pouco mais compridas. Pouco depois constatou que alguns, além de perderem, sem danos aparentes à saúde, as suas caudas, eram capazes de caminharem em pé, apoiados sobre as pernas traseiras. Em breve, tinha diante de si, diversos animais, que a exemplo dos alimentos que ingeriam, haviam sofrido uma espetacular modificação genética em sua fisiologia.

Comunicou aos seus patrões e eles ignoraram o fato. “Senhor, Rato não é gente, e gente não é Rato!”, foi a resposta unânime. Mas, não foi que aconteceu, e em pouco tempo, os efeitos, também nos humanos se fizeram notar.

Coisa discreta à princípio, tão discreta que eles, os humanos, não perceberam a mudança que ocorria em suas fisiologias. Ao contrário, alguns cientistas logo chegaram à conclusão, de que aquilo, na verdade, tratava-se de uma evolução natural da espécie, uma atualização daquilo que já era naturalmente superior dentro do reino animal. Claro que estavam falando deles próprios, os humanos.

E, se de um lado os Ratos evoluíam escondidos nos porões do laboratório, do outro, os humanos também passavam por importantes modificações genéticas. Logo os Ratos foram soltos nos esgotos e de lá, evoluíram, vieram para a superfície, se tornaram o que são hoje, a espécie dominante, os Homus ERatus. Do outro, os homens, voltaram para o seu lugar de origem, os esgotos, transformados nos Ratos que hoje são.

Moral da História: Algumas vezes, aquilo que parece um progresso é na verdade um retrocesso.

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